A QUESTÃO DA IDENTIDADE EM YAKA DE PEPETELA

 

                          Maria de Nazaré Ablas - USP

 

 

Em Yaka, de Pepetela, temos a saga de cinco gerações de colonos inaugurada em Angola por Óscar Semedo, um degredado português, que se auto-definiria como anti-monarquista. A narrativa se inicia em 1890, com o nascimento de Alexandre, único filho de Óscar e Esmeralda, uma branca “de segunda”, denominação dos brancos, nascidos na colônia de pais portugueses.

A hisória é narrada por duas testemunhas: Alexandre e pela estátua Yaka. O próprio autor explica, na “nota prévia”:

 

E a estátua é pura ficção. Sendo a estátua Yaka riquíssima, ela poderia ter existido. Mas não. Por acaso. Daí a necessidade a criar, como mito recriado. Até porque só os mitos têm realidade. E como nos mitos, os mitos criam a si próprios, falando.

 

Alexandre Semêdo e Yaka se revezam na narrativa. Embora a função primordial do mito não seja a de explicar a realidade, quando lhe falta a memória, desconhece o episódio ou não sabe interpretá-lo, Alexandre pede o auxílio da estátua. Os dois, assim, comporão um narrador onisciente e onipresente: “Fala então, viste tudo melhor que eu”.

Enquanto recorre ao testemunho do mito, o narrador tenta impedir que caiam no esquecimento fatos importantes da memória do seu país, reconhecendo que a consciência mítica é uma consciência comunitária.

A história de Angola ainda está para ser contada.Por ser um país com grande diversidade de línguas e onde prevalecem a tradição oral, a maioria dos registros foi feita no idioma do colonizador que, pbviamente, optou por contar a sua versão dos fatos, o que muitas vezes redunda em arbitrariedades:

 

Admitimos de bom grado que a historiografia da resistência em inicial em Angola se encontra condenada a ser deformada pela origem das próprias fontes disponíveis. Com muitas exceções, quem fala são os vencedores. Vencidos: fica-vos o silêncio dos iletrados, cuja memória é fantasiosa.

 

Só em muitos pontos do romance a estória está colada à História, em muitos outros ela também se rebela, em forma de crítica ou questionamentos:

Um louco esse Silva Porto (...) matar-se por uma desfeita... Vamos ver quem lucra com a guerra, há sempre alguém que lucra.

 

Ou:

 

Mutu-ya-Kevela? Onde está? Os miúdos desaprenderam o nome dele. Não há nome que fica quando comboio inglês avança.

 

Se é verdade que uma nação necessita de heróis para imprimir sua imagem, o que se percebe pelo último fragmento é uma reivindicação para que estes, no mínimo, estejam no consenso do povo.

Quando o narrador exprime-se desta forma na vóz de Óscar:

 

A história guarda os feitos dos heróis, na medida em que interessam às forças vitoriosas da época. Não são os meus vestígios que a nova sociedade vai querer na História. Um colono a mais.

 

Óscar Semêdo não foi para Angola por livre e esponTânea vontade, era um desterrado político, além de homem instruído e dotado de uma certa consciência política, situação que o colocava na marginalidade da sociedade colonialista angolana. Fez-se comerciante por falta de opção, mas almejava para o filho um futuro melhor. A ele, além do nome, transmitiu ainda a paixão pela cultura grega. Alexandre, por sua vez, quando criança tentava obter a equivalência de seu nome:

 

Não havia u7m Alexandre como eu?

– Ah, Alexandre Magno da Macedônia. Não sei se és como ele.

 

O próprio Alexandre Semedo agora projeta nos filhos, através dos nomes que lhes dá, a concretização da esperança dos ideais gregos:

 

Do pai me veio o gosto pelos gregos e suas lendas e tragédias.

Aos filhos pus sempre nomes gregos: Aquiles, Orestes, Sócrates, Eurídice(...). Nome de uma pessoa é muito importante. Nisso os gregos ensinavam-nos muito, Yaka

 

Mas, ao que parece, apenas Aquiles, seu filho mais velho, revela alguma similitude com o herói grego de quem herdou o nome na intempestiva do caráter e na flecha letal pela qual os dois foram atingidos. Além dele, Sócrates, o terceiro filho de Alexandre e Donana, só se aproxima do filósofo por ser o intelectual da família e Alexandre Semêdo mandou-o estudar direito em Lisboa. Se formou, casou e ficou por lá.

  Alexandre era homem de muitas idéias que nunca se concretizavam em ações, mas, como seu pai, era dotado de consciência política, o que não se verificava nas gerações subseqüentes.

 

Onde estava a tradição da família? O pai dele Óscar Semedo, rugiria de raiva ao saber que bisnetos tinha. Todos uns apolíticos. Já os netos também.

 

 

Tal sentimento também se verificava na quebra da tradição de nomes gregos na família. A dissidência já havia ocorrido por conta de Matilde, nora de Alexandre, e agora se repetia com sua neta, que se recusava a dar ao filho o nome que ele havia sugerido: Ulisses. Preferiu Joel.

Se os nomes gregos dados por Alexandre Semedo a seus descendentes não revelavam (como também no seu caso) a identificação por ele desejada, Joel, o único membro das novas gerações dotado de consciência política resgatará as espectativas do avô ao escolher Ulisses como codinome na guerrilha.

 

Os negros ensinaram-me muito Yaka. O verdadeiro nome, o definitivo,só é dado depois da puberdade, quando a pessoa mostrou qualidades que podem ajudar a escolher o nome conforme.

 

Ao adotar Ulisses como queria Joel não está apenas assumindo outra identidade, fator importante para a segurança na guerrilha, mas considerando-se o trecho acima, onde o moderno africano incorpora o mito europeu, metaforicamente, está assumindo também a sua identidade nacional.

Ao mesclar, neste romance, os mitos africanos com os europeus, Pepetela parece buscar a síntese entre a cultura helênica e a angolana, as culturas milenares européia e africana, juntas, compondo a angolanidade moderna.

O romance, dividido em cinco partes, sempre coincidentes com períodos críticos da história de Angola – A Boca 91890 – 1904), Os Olhos (1917), O coração (1940-41), O sexo (1961), As pernas (1975) – apresenta, nas quatro primeiras, o relato das situações ocorridas no país desde o assentamento da colonização ( final de sec. XIX) até a insurreição nacionalista e a repressão colonial, em 1961, descortinando um panorama da história angolana.

A estátua YAKA, assim como o povo YAKA, citado na nota prévia, pode ser vista como símbolo da unidade nacional, sendo criado no Norte e migrando para o Sul, onde passa seus últimos anos (e já era muito velha quando Óscar a adquiriu), assim como, de forma metafórica, o romance, que compreende o “todo” do homem na medida em que, em sua estrutura, liga A boca, os olhos, o sexo e as pernas. Mesmo ao se estilhaçar em conseqüência da guerra, essa unidade será mantida:

A boca tem a capacidade dupla de construir e de destruir, conforme o uso das palavras:

 

A sua força está na boca, onde pode entrar a aguardente traiçoeira, mas donde podem sair as palavras que arrastam os outros. Sim, a boca é forte (...)

 

Através da eloqüência, da explosão do pensamento, entretanto, a boca para um lado continuará a propagar, para quem estiver preparado para ouvir, a História de um povo.

Talvez os olhos da estátua incomodassem Alexandre e irritassem também a seus familiares porque era através deles que ela falava.

Os olhos pelo mar se justificavam por ser este o espaço das transformações. O mar revela, pelo movimento de suas águas, a dinâmica do tempo ( da vida). E são eles que finalmente desvendam a Alexandre o que ele esperava a vida toda.

Com efeito, ao morrer Alexandre, vai-se com ele a última geração de colonos, uma vez que sua família se dispersou e, no único elemento que permaneceu, não se encontram mais resquícios de idéias colonialistas, ao contrário, ele encampa os ideais libertários, o princípio de uma Angola livre.

O coração pode ser associado à noção de centro e o seu duplo movimento (sístole e diástole) à expansão e a reabhsorção do universo:

A terra, identificada com a função maternal, relacionada à imagem do coração como centro da vida, sugere que a estátua, com o coração embaixo da terra, continuará mantendo vivo o amor à “mátria”.

O sexo para o Norte remete ao local onde Yaka foi concebida e também onde se originou a grande força da guerrilha que garantiu a independência do país.

As pernas são os membros responsáveis pela locomoção. Desencadeadoras do movimento, estão destinadas a encurtar as distâncias e assim, ao possibilitar as aproximações e os vínculos, revestem-se de um caráter social. As pernas para o Sul alertam que é dessa região que provêm os grandes inimigos da nação: os sul- africães, e é contra eles que se tem que marchar.

Segundo Chevalier e Gheerbrantm em seu Dicionário de Símbolos, algumas tribos africanas têm o hábito de comer a terra como símbolo de identificação. Alexandre Semedo, ao nascer, mordeu-a ou beijou-a e seu corpo ficou misturado ao pó da terra:

 

A minha boca se abriu definitivamente,igual a do menino ao nascer, para o sabor da terra molhada

 

 E esse sabor e cheiro o acompanham na morte. Assim se completa o ciclo. Ao morrer, também sua boca se colou à terra.

A narrativa, fragmentada em capítulos, da mesma forma que a estátua, enfatizada nas partes que a compõem, reforça a idéia da unidade, quando as pernas encerram o ciclo iniciado pela boca. Se esta protesta e anuncia as boas novas, aquela conduzirá a um novo caminho. E o que era intenção fez-se ação.